Sobre o autor

Meu nome é Renato Fernandes. Sou jornalista, cronista, artesão e pesquisador independente brasileiro. Durante vinte anos atuei no jornalismo regional, cobrindo cultura, curiosidades, personagens e acontecimentos do cotidiano. Essa experiência me permitiu desenvolver um olhar atento para as histórias que normalmente passam despercebidas pelos grandes veículos e pelos registros oficiais. Minha trajetória Antes da atuação no jornalismo, vivi experiências ligadas à estrada, ao artesanato e ao comércio ambulante, percorrendo diferentes lugares e convivendo com pessoas de origens variadas. Essas vivências moldaram minha forma de observar o mundo e influenciam diretamente minha escrita até hoje. Paralelamente à produção de conteúdo, desenvolvi trabalhos nas áreas de desenho, escultura, modelagem de máscaras, impressão 3D e projetos maker, unindo técnicas artesanais tradicionais a ferramentas contemporâneas. Sobre o Relatos Esquecidos O Relatos Esquecidos nasceu da vontade de reunir histórias,...

Devoradores de Pecados: eles comiam os pecados dos mortos em um banquete sobre o cadáver

Devoradores de Pecados: eles comiam os pecados dos mortos em um banquete sobre o cadáver


Nesta edição do Relatos Esquecidos trataremos dos Devoradores de Pecados. Pessoas que realizavam um ritual, onde se alimentando sobre os mortos acabavam assumindo para si, os pecados do cadáver. 

O ritual iniciava logo após o falecimento, pois assim, a alma do defunto estaria mais suscetível a liberar os pecados permitindo assim que seguisse para a vida eterna em completa paz.

Segundo o folclore, o devorador de pecados é praticante de uma forma de magia religiosa. Magia essa, bastante atuante em regiões da Inglaterra e Escócia até o início do século XX, tendo registros principalmente em regiões País de Gales e da América.

Em sua grande maioria, os devoradores eram mendigos, entretanto algumas aldeias mantinham seus próprios praticantes. Eles eram levados para o leito de morte e sobre o cadáver, um parente próximo montava uma espécie de mesa no peito do defunto, servindo a ele um pedaço de pão e uma tigela de cerveja. 

Após rezar ou recitar o ritual, o devorador se alimentava e assim o pecado da pessoa morta ou que estava prestes a falecer era assumido, a partir daquele momento, pelo devorador.

O ritual previa a retirada do cadáver da residência onde estaria ocorrendo o velório, posicionando o corpo em um esquife e sobre ele era colocado um pedaço de pão e uma caneca de cerveja, para serem consumidos. Após a refeição era feito o pagamento de uma taxa que variava de acordo com os pecados do homem morto.




Durante o ritual, parentes mais religiosos permaneciam rezando, porém sem abrir a boca, além disso todas as portas e janelas da residência se mantinham fechadas.

No decorrer do ritual o devorador proferia o discurso: ".... Eu dou servidão e descanso agora a ti, querido homem. Não venham em nossas vias ou nos nossos prados. E para a tua paz eu comprometo minha própria alma. Amém"

A figura do devorador de pecados permanece até hoje na cultura moderna, marcando presença no folclore, com personagens célebres, como Richard Munslow, considerado o último Devorador de Pecados do mundo e que faleceu em 1906, na Inglaterra.


Não existem relatos precisos sobre a origem dessa tradição, porém uma das práticas que pode ser considerada como precursora é a tradição judaica de usar uma cabra como manifestação física dos pecados do povo judeu. Na época do Yom Kippur, ou seja, o Dia do Perdão eterno, celebrado uma vez a cada ano, no dia 24 de setembro, quando uma cabra é solta em área afastada para representar que os pecados das pessoas foram mandados para longe.


Nas culturas antigas, esse mito é considerado uma constante, por exemplo, a deusa asteca  Tlazoteotl,  presente na civilização Mesoamericana, garantia aos pecadores,. ao final de sua vida, confessar seus crimes a esta divindade, que, de acordo com a lenda limpava a alma do moribundo  "comendo a sua sujeira", ou pecado.




O livro Funeral Customs (práticas funerais), de Bertram S. Puckle, datado de 1926, também  menciona o devorador de pecados, com os seguintes dizeres:

"O professor Evans do Colégio Presbiteriano, Carmarthen, realmente viu um devorador de pecados no ano de 1825. Ele era abominado pelos aldeões supersticiosos, e tido como o imundo, o devorador de pecados cortou todas suas relações sociais com seus semelhantes por causa da vida que havia escolhido; ele viveu como uma regra em um lugar remoto por si mesmo, e aqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-lo o evitavam como se fosse um leproso. Este infeliz foi detido por bruxaria, encantamentos e práticas profanas; apenas quando a morte lhes ocorria eles o procuravam, e quando seu propósito foi realizado queimaram a tigela de madeira e o prato de onde ele havia comido o alimento entregue em todo, ou colocado sobre o cadáver de seu consumo".

Ainda existem resquícios dessa prática  atravessando eras pelo mundo; por exemplo:

Na Alta Baviera o devorador de pecados ainda sobrevive: um bolo de cadáver é colocado sobre o peito do morto e, em seguida, comido pelo parente mais próximo.




Na península balcânica uma imagem do falecido é impressa num pão pequeno e consumido pelos parentes vivos da família.

Os dead-cake holandeses são marcados com as iniciais do falecido, e esse costume também foi  introduzido na América, em meados do século 17, principalmente na antiga Nova York. 

Os bolos de enterro, também continuam como tradição em partes da Inglaterra rural, na atualidade.
Autor Relatos Esquecidos

Sobre o Autor

Autor, cronista, artesão visual e pesquisador independente brasileiro. Atuou por cerca de duas décadas no jornalismo regional, cobrindo cultura, curiosidades, personagens e acontecimentos do cotidiano. Criador do Relatos Esquecidos, dedica-se à pesquisa e divulgação de história, arqueologia, cultura popular, mistérios históricos e acontecimentos pouco conhecidos.

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