A história que aprendemos não é um espelho do passado — é uma curadoria. Alguém escolheu o que entra, o que sai e, principalmente, o que deve ser esquecido.
Livros didáticos,
monumentos,
datas comemorativas e
heróis oficiais não nascem do acaso; são produtos de disputas vencidas. Toda história ensinada é, antes de tudo, a história de quem teve força suficiente para narrá-la.
O passado não desaparece quando perde uma guerra. Ele é empurrado para as margens, triturado em notas de rodapé, diluído em termos genéricos como “conflitos”, “ajustes”, “processos inevitáveis”. As vozes dos derrotados não somem — elas são abafadas. Permanecem nas canções populares, nas tradições orais, nos apelidos, nos medos transmitidos de geração em geração. O
silêncio também é um documento histórico, mas poucos aprendem a lê-lo.
A história oficial gosta de linhas retas:
progresso,
evolução,
desenvolvimento. Ela odeia desvios, contradições e derrotas morais. Por isso, transforma massacres em “pacificações”, invasões em “descobrimentos” e exploração em “oportunidade”. Não é mentira direta — é seleção cuidadosa. O que não serve ao enredo dominante é descartado como irrelevante ou inconveniente.
Quem vence escreve a história, mas quem perde vive suas consequências por séculos. Povos inteiros são reduzidos a parágrafos apressados, enquanto impérios fracassados ganham capítulos gloriosos. A escola ensina datas, mas raramente ensina a perguntar: quem pagou o preço desse acontecimento? Quem desapareceu depois dele? Quem nunca foi convidado a falar?
Ler a história exige mais do que memorizar fatos. Exige desconfiança. Exige atenção às entrelinhas, aos vazios, às repetições suspeitas. Sempre que um evento parece “inevitável”, alguém decidiu que ele deveria parecer assim. Sempre que um grupo é retratado como obstáculo ao progresso, provavelmente foi um obstáculo ao poder.
As vozes dos perdedores não gritam. Elas sussurram. Estão nos diários nunca publicados, nos corpos sem nome, nas culturas tratadas como atraso. Escutá-las é um ato de desobediência. É recusar a versão confortável do passado para encarar sua complexidade brutal.
A história que aprendemos é uma escolha. A história que buscamos, por conta própria, é um risco. Mas só nela existe alguma chance de compreender o presente — e talvez, com muito esforço, não repetir os mesmos erros com novos nomes e novas bandeiras.
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Solano Raiz é
ensaísta anarquista e observador do
poder invisível, escreve manifestos poéticos sobre impérios, colapsos e silêncios globais.
Um ser errante e observador do poder invisível
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