O Império não tem bandeira porque bandeiras servem para distrair. Elas tremulam ao vento enquanto o poder real permanece imóvel, pesado, assentado em planilhas, contratos e cláusulas que ninguém lê. O Império não canta hinos, não pede votos, não participa de debates televisivos nem se submete ao calendário eleitoral. Ele observa. Espera. E vence independentemente de quem esteja no palanque.
Eleições são rituais. Como antigas danças da chuva, servem para acalmar os povos, dar a sensação de participação e pertencimento, enquanto as decisões fundamentais já foram tomadas em salas sem janelas, por homens e instituições que jamais aparecerão na urna. O voto não é inútil; ele é funcional. Legitima o que já existe. O poder real não precisa disputar eleições porque já controla o tabuleiro, as regras do jogo e, muitas vezes, o prêmio final.
O Império moderno não ocupa territórios com soldados, mas com dívidas. Não impõe leis com tanques, mas com acordos. Ele não derruba governos; cria as condições para que caiam sozinhos.
Bancos centrais,
fundos de investimento, organismos “técnicos” e
corporações transnacionais formam um ecossistema que não responde a eleitores, apenas a indicadores. Crescimento, risco, estabilidade — palavras neutras que escondem escolhas brutais.
Enquanto a política se fragmenta em
discursos morais, identitários e partidários, o Império opera em silêncio. Ele não se importa se o governante é de esquerda ou de direita, conservador ou progressista. Importa apenas se é previsível, obediente e útil. Quando não é, torna-se “instável”, “radical”, “ameaça à democracia”. A linguagem muda, a punição é a mesma.
O cidadão comum aprende desde cedo a odiar o político visível, o corrupto de rosto conhecido, o inimigo fácil. Poucos são ensinados a desconfiar do
poder sem rosto, daquele que nunca aparece em escândalos porque escreve as regras que definem o que é ou não escandaloso. O Império não precisa convencer ninguém; basta condicionar a realidade até que só reste uma escolha possível.
Não há conspiração grandiosa, nem um cérebro único comandando tudo. O Império funciona como um organismo. Cada parte age em seu próprio interesse, mas todas obedecem à mesma lógica: acumular, proteger, expandir. Quando uma engrenagem falha, outra assume. Quando um governo cai, outro ocupa o lugar. A continuidade é a verdadeira vitória.
Por isso o poder real não disputa eleições. Ele não pode perder. Ele se adapta. Ele atravessa décadas, ideologias e fronteiras como quem atravessa estações do ano. O Império não teme o voto; ele o incorpora como parte do seu mecanismo de sobrevivência.
E assim seguimos, celebrando alternâncias que não alternam nada, discutindo nomes enquanto as estruturas permanecem intactas. O Império não tem bandeira porque bandeiras envelhecem, rasgam, queimam. O poder real prefere o invisível. E tudo o que é invisível demora muito mais para ser combatido.
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Solano Raiz é
ensaísta anarquista e observador do
poder invisível, escreve manifestos poéticos sobre impérios, colapsos e silêncios globais.
Um ser errante e observador do poder invisível
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